Catarina, feminismo e a guerra dos sexos: parte I

Pretendo correlacionar, nesse artigo, a artista Cataria, pernambucana, ativista e reprodutora do punk brega com textos do livro de Gilles Lipovetsky, “A Terceira Mulher: permanência e revolução do feminino”. O objetivo é entender como o feminismo e o discurso ativista podem e estão inclusos dentro de produções musicais e, também, apresentar um pouco dessa artista incrível que é Catarina. Para isso, irei dividir os posts com essa relação em partes, todos serão pedaços de um mesmo bloco de pensamento.

cat de jah

“É… Não é mole não… Tanto rapaz por aí esbanjando saúde trocando uma noite de amor, por uma noite de bright, ratatá com os amigos. E a mulherada largada em segundo plano. Pense numa racinha se estranhando… Vulvas em fúria!”

É possível enxergar esse discurso como um discurso irônico?

Isso é dito por Catarina (former Dee Jah), feminista do século XXI, musicista e corpo altamente performático. No entanto, antes de entrar nos detalhes do ativismo político da pernambucana, é importante compreender o discurso das primeiras feministas. Afinal, são as referências mais usadas; já que a luta feminista sempre se colocou no patamar da libertação da mulher, na independência perante a uma sociedade machista e patriarcal.

Lipovetsky, escreve “<<O poder está na extremidade do falo>>, dirão as feministas em Maio de 68.”. A luta das feministas nos anos 60 era relacionada a libertação feminina, como ainda hoje acontece, mas para fins mais básicos (o trabalho, o voto…). Dentro dessa lógica e da ideia de que a mulher – pelo simples fato de ser mulher -, tem um poder mais limitado que os homens, a musicista pernambucana Catarina tira das suas mangas a sua ironia ácida.

O feminismo contemporâneo se manifesta pelas vias menos prováveis e com os discursos mais diversificado que o feminismo original. O que começou com o direito ao voto, hoje se torna no direito da libertação do corpo feminino para fazer aquilo que bem entender. A música em prol do movimento não é uma novidade, mas com certeza existem novas abordagens, bem mais ousadas e críticas. Catarina se coloca dentro dessa lógica de discurso de poder. Suas músicas – presentes no álbum Mulher Cromaqui – se dispõe de forma ácida, sarcástica e irônica quanto as situações que são impostas às mulheres, além da “domesticação” da forma que a mulher deve agir perante a uma sociedade opressora.

A nona faixa do álbum Mulher Cromaqui é intitulada “Mulher Tiragosto”. O título, em si, aponta a objetificação do ser feminino e representação do empoderamento dado ao dono do falo (comprovação que também aparece no trecho: “Não sei o que vão pensar se você não vier me lanchar”). A música apresenta a situação em que o ser masculino determina quando fazer sexo e, a mulher que se pré dispôs a sair com ele rejeita essa ideia, que foi imposta de forma grosseira e desrespeitosa.

Para explicar melhor, usemos trechos da música. O homem tenta se aproximar da mulher com o objetivo de realizar seus próprios desejos (“Obrigado princesa, eu saí para beber/Vou ficar com a cachaça, o meu ponche é você”),mas logo em seguida é rejeitado (“Sai pra lá, encosto!/ Não quero ser sua mulher tiragosto”). Não seria, então, o discurso total da canção um antagonismo ao monólogo inicial?

Isso oferece ideia da ironia e da crítica ao homem que impõe a vontade própria à mulher. Catarina se coloca, então, como uma linha do feminismo que é citado por Lipovetsky como um feminismo que reivindica “o direito das mulheres a uma plena autonomia sexual.” A música, que depois prossegue com discursos, diria até, um pouco clichés, feitos por pessoas que discordam com práticas e discursos feministas (frases semelhantes com o seguinte trecho: “Calma, olha o estresse, gata!/Com essa latomia você não emplaca” são muito utilizadas como forma de quebra de discurso, ou de discordância – a mulher que se opõe a práticas patriarcais é estressada, louca, histérica), colocam e se põe a própria artista dentro da lógica de embate, ela se posiciona na denuncia a “natureza patriarcal”, como diz Gilles Lipovetsky.

Talvez as perguntas que apareçam sejam: seriam músicas desse teor compreendidas? Se sim, essas compreensões são necessárias? Eu respondo, obviamente são compreendidas em algum seguimento e, obviamente, são necessárias.

Assim como manifestos a favor da liberdade feminina, a música chega aos ouvidos de muitos, ela é um mediador do canal para discussões.  Cabe lembrar que é de amplo conhecimento que a violência contra mulher – todos os tipos de violência – acontece por causa de imposições diretas do patriarcado. Portanto, enquanto houverem mulheres oprimidas nos pequenos detalhes (de uma cantada na rua, ao assédio sexual), existirão músicas como “Mulher Tiragosto” e artistas como Catarina que cantam manifestos diretos, críticos, realistas e extremamente irônicos.

Escutem “Mulher Tiragosto” do álbum Mulher Cromaqui:

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