A mulher irônica: a forma Palmer de criticar.

Amanda Palmer, cantora e artista estadounidense, não parece se encaixar na lógica de feminista vitimista citada por Gilles Lipovetsky – nem mesmo é conivente com essa ideia. Conhecida por suas letras diretas e ácidas, desde o início de sua carreira musical, Palmer se coloca crítica perante o estupro ou assédio sexual, mas de uma maneira descontraída e sem, em nenhum momento, colocar a vítima como um ser digno de pena. A música “Oasis” é um bom exemplo. Composta por Amanda com o objetivo do cômico, a música conta a história de uma menina que é estuprada e realiza um aborto. Colocada de forma simplista, pode parecer chocante que essa música tenha um tom de comédia, no entanto a história vai além da ação de violência para com a vítima.

Uma das preocupações apresentadas por Lipovestky no seu livro “A terceira mulher: permanência e revolução do feminino” é a ‘demonização’ do homem perante a mulher, seguindo a lógica discurso feminista que coloca “tudo” como política. O autor apresenta argumentos expondo certa ‘vitimização’ do sexo feminino, resultado do que ele vem a chamar de “hiperfeminismo”. Isto é, a mulher é imposta como sexo mais frágil e por isso necessita de diversas intervenções judiciais e políticas para protegê-las dos homens, chegando, até mesmo, a limitar o convívio entre gêneros.

Gilles Lipovestky jamais nega o fato que muitas mulheres, sim, sofrem nas entranhas de uma sociedade patriarcal que as subjugam e inferiorizam. No entanto, ele afirma que pode existir um exagero  quanto a lógica de “assédio sexual” de homens contra mulheres. Ele afirma que existe uma estigmatização da “mulher pudica e frágil(…)a imagem na mulher vítima natural do homem, que recriam o formalismo nas relações dos professores com as suas alunas. que esterilizam o ambiente intersexual”. Cabe a nós questionar se todas as formas de discurso feminista caminham pela estrada da vitimização do gênero.

Como é possível de se ouvir, a história é sim sobre uma menina estuprada em uma festa (o chamado “date-rape”), no entanto ela a todo momento expressa o entusiasmo em receber uma foto autografada da banda Oasis, provavelmente seu grupo musical favorito. Amanda Palmer foi duramente criticada da Grã Bretanha pela música e vídeo clipe. Foi acusada de diminuir os problemas ligados ao  estupro e ao aborto, ela respondeu a essas críticas dizendo que estaria apenas utilizando o humor irônico para apontar um problema que acontece com muitas jovens. Não estava fechando os olhos para um caso, mas também mostrava que uma vítima de estupro não merece a pena de ninguém.

A música apresenta uma situação vivida por jovens mulheres e critica claramente as atitudes e pensamentos em resposta à vitima da violência. A atitude dos “cristãos fundamentalistas” ou da melhor amiga Melissa Mahoney que espalhou um boato maldoso são atitudes de muitas das pessoas que tem conhecimento de uma garota que sofreu um estupro e/ou que realizou um aborto. Principalmente na faixa e idade de 15 anos, que era mais ou menos a faixa pensada por Palmer para a garota nessa música.

O último detalhe importante da música – mais claro no clipe – são os homens citados. O estuprador e o namorado da jovem.

O estuprador é extremamente caricato como um típico jovem egocêntrico, pelo boné que usa, pode até se dizer que ele é um esportista (o que dá um status de popularidade para o homem em vários círculos jovens norte americanos), branco e que se diverte enquanto toda a ação acontece. Um homem que se beneficia em cima de garotas bêbadas, com características físicas similares aos estupradores descritos nas famosas date-rapes. 

Reparem nas fotos da parede, mas principalmente na foto do estuprador. No melhor estilo “school sexy symbol”.
Reparem nas fotos da parede, mas principalmente na foto do estuprador. No melhor estilo “school sexy symbol”.

O segundo rapaz, aparece como uma pessoa meio boba, que treme o tempo inteiro. Por causa do tremelique, das roupas de “vovô” e da postura corporal, o namorado parece ser propositalmente idiotizado, um ser fraco. Diferente da jovem que parece ter toda a situação sobre controle.

Lipovetsky escreve:

“Rir do masculino e saber manter os homens à distância pela improvisação, não consiste em reabilitar as respostas individuais aos problemas da condição feminina, mas antes apelar a uma reorientação da cultura feminista para uma maior apropriação do poder irônico.”

A representação dos dois seres masculinos presentes na letra da música como sendo duas criaturas cartunescas que beiram a definição de patetas seria a representação da resposta e uma tomada de poder da ironia.

Uma outra composição que merece atenção pela ousadia e sarcasmo ácido é “Lonesome Organist Rapes Page Turner”. Composta por Amanda Palmer na época em que cursava a universidade, a ideia da música veio em um tom de piada, inspirada na sua própria adolescência – em como ela e alguns dos seus professores de piano flertavam entre si – e em um tocador de órgão que ela conheceu na faculdade.

Em entrevista, Palmer afirmou que imaginou toda a situação. Como seria engraçado uma chamada de jornal sendo “Lonesome Organist Rapes Page Turner”. No entanto, ela diz que, não é porque o estupro tem um tom cômico que é um assunto simples de lidar. Esta música além de criticar o estuprador, também mexe com a instituição religiosa (como muitos devem saber, o órgão é um instrumento comum em igrejas cristãs). O homem, novamente é colocado de forma caricata, mas dessa vez através da voz de Palmer, e não na letra exatamente. Na verdade, apenas ler a música passa a impressão de que ele é muito assustador. Amanda Palmer vocaliza toda a diminuição ao sexo feminino e o próprio desespero, no entanto de uma forma completamente hilária.

A ironia ácida usada por Palmer pode ser extremamente perigosa, andar no limiar, numa fina corda bamba. Talvez por isso ela seja tão criticada. Mas não seria essa a “mulher irônica” a qual Lipovetsky diz que existe após a mulher que sofre a violência? Vejo, portanto, Amanda como a mulher irônica, que se coloca com liberdade se impondo através da ironia hilária e ácida contra práticas machistas. Ela utiliza o que Gilles Lipovetsky chama de “feminismo adulto”, o riso como arma contra aquelas que oprimem.

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